segunda-feira, 24 de setembro de 2012

NOTA DA ATY GUASU, MATO GROSSO DO SUL, GUARANI-KAIOWÁ 23/09/2012


Esta nota das lideranças da Aty Guasu e pesquisadores Guarani e Kaiowá visa divulgar e socializar os resumos de depoimentos/narrações dos integrantes Guarani e Kaiowá que foram e são ainda vítimas diretas de violências variadas planejadas e executadas pelos fazendeiros/ocupantes de territórios Guarani e Kaiowá. Além disso, é destacar e informar que, durante os três (03) dias, os participantes (pesquisadores indígenas e não indígenas) do 1º Simpósio de pós-graduados e Aty Guasu ouviram vários barulhos de disparos de armas de fogo, vindo da fazenda Porto Domingos do senhor Luiz Bezerra. Os tiros foram lançados pelos pistoleiros/funcionários das fazendas cada três (03) em três (03) horas consecutivamente. Assim, todas as vezes que se ouviam os barulhos de tiros, o palestrante do Simpósio parava e os participantes e comunidades indígenas se dispersavam por 20 minutos e logo depois retornavam e continuavam o s depoimentos e narrações. De fato, este 1º Simpósio mencionado começou-se no dia 20/09/2012, em território Indígena Arroio Kora, de longe se ouviam os sons de instrumentos de ritual religiosos (maraká e takua) associados à reza/canto Guarani e Kaiowá e ao mesmo tempo, pertinho dali, cada duas e três horas, se escutava também os barulhos de tiros de armas de fogo. Hoje, domingo (23/09/2012) às 09h00min quando se encerrou o 1º Simpósio foram ouvidos mais de dez (10) tiros de armas de fogo sobre indígenas de Arroio Kora.
Importa ressaltar que apesar de centenas tiros lançados sobre o local de 1º Simpósio, o objetivo central de simpósio indígena foi alcançado. Visto que a maioria das vítimas de violências praticadas pelos fazendeiros de Cone Sul/fronteira com o Paraguai prestaram depoimentos e narraram em detalhes no seio do 1º Simpósio/Aty Guasu e enfim as lideranças elaboraram um prazo para os fazendeiros a saírem das terras indígenas, uma vez que depois do prazo vencido a decisão definitiva é de reocupar todos os territórios já homologados pelo Governo Federal/Presidente da República.
Esses depoimentos citados dos indígenas idosos (as) evidenciam que todas as comunidades Guarani e Kaiowá que decidiram a recuperar os seus territórios tradicionais sofreram e sofrem ainda as diversas violências de forma similares, mencionamos a seguir. Em geral: 1ª- violências praticadas contra vida das comunidades Guarani e Kaiowá que retornam ao seu território é a ameaça de morte coletivo/genocídio associado ao ataque a tiros dos pistoleiros, queima de casas e pertences, prática de tortura, espancamento, assassinatos e ocultação de cadáver das lideranças entre outros. 2ª- violências praticadas contra a vida dos Guarani e Kaiowá espancados e torturados são abandonos pelos autores, mandantes e, sobretudo pelos Governos e Justiças. Estes dezenas indígenas Guarani e Kaiowá que foram agredidos, espancados e torturados ficaram doentes e inválidos totalmente em decorrência de violências sofridas. A maioria das vítimas de violências e não recebem nenhum tipo de assistências médicas especializadas e adequadas. 3ª- Uma das violências praticadas contra a vida dos guarani e Kaiowá é não mais utilização dos recursos naturais existentes nos seus territórios tradicionais, isto é, há acesso proibido aos fontes de recursos naturais, tais como: rios, córregos, matas, campo e cerrados entre outros. Os indígenas não podem mais pescar, nem caçar e nem fazer coleta de frutas e plantas medicinais, etc. Relativo à posse e usufruto exclusivo dos recursos dos territórios indígenas fica evidente que os vários territórios antigos já foram identificados, demarcados e homologados pelo presidente da Republica do Brasil, há anos e décadas, porém os fazendeiros continuam utilizando normal, mas os indígenas não podem usufruir os recursos existentes nos territórios indígenas declarados como território indígena. Esta realidade é uma das graves violências que atingem diretamente a vida dos Guarani e Kaiowá. Em resumo, diante dessas violências históricas e genocídios evidentes, pedimos indenização de reparação com urgência, assim decidimos cobrar em dinheiros aos fazendeiros que ocupam ainda os nossos territórios tradicionais declarados e homologados pelo ministro da Justiça e Presidente da República. Além disso, estamos planejando um prazo curto, isto é, menos de um (01) anos para os fazendeiros desocuparem os nossos territórios já homologados pelo Presidente da República. É muito claro que esses territórios já são nossos novamente, por isso já decidimos e vamos reocupar os nossos territórios após os esgotamentos dos prazos. Nós como povos Guarani e Kaiowá nativo/autóctones/originários desses territórios que não viemos de outros lugares distantes, somos daqui mesmos, e hoje vemo-nos no caminho de extinção/dizimação física e culturais. De fato estamos sendo ameaçado de extinção todos os dias. Cada dia está sendo ameaçado e morto um indígena de modo cruel, humilhados, ignorados e atacado a tiros, como não fossemos seres humanos desse planeta, por exemplo: que ocorreu durante o 1º Simpósio mencionado, a nossa Aty Guasu não foi protegido pelas instituições do Governo Federal e, por isso fomos atacado e intimidado a tiros, nenhuma autoridade federal não compareceu ao local. Desse modo, sentimos que fomos desrespeitados e ignorados e humilhados como indígenas e, sobretudo como seres humanos. Em decorrência disso, estamos profundamente indignados com os modos que fomos tratados pelos agentes do Governo Federal. Não acreditamos nos termos de que nós Guarani e Kaiowá estariam sendo priorizados pelo Governo Federal. Um pesquisador indígena disse: “O termo/verbo priorizar Guarani e Kaiowá não confere em forma de atuar dos agentes locais das instituições do Governo Federal”. É evidente que tanto pelos fazendeiros quanto pelos poderes do Brasil e da Justiça estamos sendo tratados ainda como não seres humanos. Essa é a verdade constatada por nós nesse contexto atual em Arroio Kora.
Frente ao fato, já sabemos e sentimos claramente que sem esses nossos territórios antigos nós estamos no caminho de extinção/dizimação. Assim, neste 1º Simpósio citado, concluímos em parte que nós Guarani e Kaiowá somos também um dos povos nativos do Planeta/Mundo que estamos no processo sistemático de extinção/dizimação. Essa constatação de extinção física e cultural do povo Guarani e Kaiowá foi apresentada tanto pelas lideranças religiosas da Aty Guasu como pelos pesquisadores Guarani e Kaiowá. Isso é a nossa justificativa para exigir a política de indenização/ reparação, com urgência, pelo Governo e Justiça Federal e solicitar a devolução imediata de nossos territórios tradicionais pelos fazendeiros, isto é, os fazendeiros que ocupam os nossos territórios homologados tem que retirar as suas fontes de riquezas dos nossos territórios de modo imediatas. Essa é nossa decisão definitiva imutável e inegociável.
Atenciosamente,
Tekoha Guasu Arroio Kora, 23 de setembro de 2012
Comunidade Guarani e Kaiowá de Arroio Kora-Paranhos-MS
Pós-Graduados e pesquisadores Guarani e Kaiowá-MS.
Lideranças da Aty guasu Guarani e Kaiowá-MS